
Navego pela vida em meu navio fugitivo. Às vezes, em festa, às
vezes, solitária... mas sempre em movimento. Ultimamente, ele tem
estado bem cheio de mim e vazio dos outros... isso me faz refletir
demasiadamente... talvez até mais do que eu deveria refletir.
O fato é que a vida é feita de reviravoltas, o que faz da minha
algo bem preenchido. Vitórias, derrotas, companhias, solidão... as
mudanças são constantes e é isso o que me movimenta. O vento é
sempre necessário para que se possa navegar, velejar... Estou agora
mergulhada em novos ares. A mudança é incômoda para mim. Não sei
lidar muito bem com ela. Parece estar sempre me ameaçando.
Gosto da estabilidade, mas se ela estivesse sempre presente, não
haveria movimento, logo, não haveria vida. As aventuras vêm de bom
grado e aos montes quando chegam novidades. As descobertas são algo
renovador que dão ânimo quando trazem boas novas. O problema é
quando a atmosfera torna-se sombria, quando não há boas novas e
quando a verdade descoberta te faz perceber que a realidade do
mundo onde vivemos, da vida que construímos, é, na verdade, bem
diferente do que imaginávamos. Diferente por ser ruim,
desconcertante, constrangedora.
Convivemos com os dois lados da história todos os dias. Eu, pelo
menos, tenho diversas experiências em que meus sentimentos foram
contraditórios. A alegria caminha de mãos dadas com a decepção e é
nessas antíteses da vida que me situo. Sou uma pessoa temperamental
que caminha constantemente sobre a fina e frágil linha que separa a
satisfação da infelicidade... essa estreita linha entre o amor e o
ódio.
A vida e a morte são parceiras no fim das contas. Essa é a
conclusão mais óbvia que podemos tirar de tudo isso. Mas,
infelizmente, as pessoas fecham os olhos para essa realidade. Fogem
dela. Temem-na com cada fibra de sua essência. Porém, de nada
adianta, uma vez que é inevitável. A morte é uma consequência da
vida. Desde o momento em que nascemos estamos condenados a
experimentá-la. "Condenados", na verdade, não parece um termo
adequado, já que faz com que a morte pareça um castigo, algo ruim.
A morte não é ruim, é apenas necessária. É inerente à vida. O fato
é que um corpo em movimento, para mudar o sentido de seu
deslocamento, precisa de um instante em repouso.
Meu navio segue em meio às reflexões. E concluo hoje que devo
seguir intensamente sem jamais olhar para trás. Muitos companheiros
de viagem tomaram rumos diferentes do meu, muitos perderam o rumo,
outros continuam com seus navios paralelos ao meu. Mas o tempo não
para e o vento continua. Um dia, chegará a hora de mudar o sentido
de minha vida, de meu movimento. Nesse dia, quero estar em paz
interior e, ao perceber que é mesmo o dia, sentir-me satisfeita
pela minha viagem. Assim, poderei passar a ser um corpo em repouso.
Esse é um ponto de vista. Ainda acho que, mesmo sendo um corpo em
repouso, há forças maiores, que muitos ainda não compreendem ou
apenas preferem ignorar, que controlarão o equilíbrio vital.
Afinal, todos estamos interligados em nossas almas, em nossas
origens.
Enquanto espero esse dia chegar, navego buscando maiores
compreensões. Flutuo em meus pensamentos e oscilo por entre os
contraditórios sentimentos que a existência nos proporciona. Navego
em meio às reviravoltas, às novidades e ao vento que sopra em meu
rosto a cada dia.